10 dezembro, 2012

A Menina de Olhos Castanhos


Era uma menina de olhos castanhos. Assim mesmo, com esta descrição pura e simples. Não que ela tivesse algo a esconder, mas era assim que se apresentava.


Não queria ter um diferencial. Na verdade, a exaltação de características nada rebuscadas simplesmente a igualava a várias outras garotas. E era o que ela queria. Tinha pavor em ser notada, em ser vista ou julgada. Sentia-se reprimida e se colocava em uma posição que tinha aversão, talvez por medo. Detestava a ideia de existir, mas existia.

Ela, a menina de olhos castanhos. Aquela que era simplista. Na verdade, aquela que, no âmago, não era nada simplista. Aquela que fazia exercícios para manter sua mente vazia de tudo, de gente, do mundo. Mas não conseguia.

A menina de olhos castanhos. A menina que se autodenominava assim tendo como único critério a cor dos olhos. Mas por que justo este critério?  Ela que poderia se caracterizar de diferentes formas básicas, por que escolheu pela cor dos olhos?

Foi quando descobriu que era muito mais do que uma menina de olhos castanhos. Percebeu que o seu olhar, aquilo que a caracterizava perante o seu mundo particular, em uma percepção de seu “alter ego”, era eivado de significados. Sentiu, pela primeira vez, um choque de realidade.

A menina, repentinamente, se arriscou a tentar ser quem, de fato, era. Tentar se igualar às outras era demasiado difícil, moralmente complexo. Assentiu que aquela que optava ser não era ela. Livrou-se das amarras que outrora havia criado para si mesma.

Afastou o receio de abranger sua visão e, enfim, passou a enxergar. Optou por novas escolhas, desta vez, positivas. Resolveu sair da inércia, da vida sem emoções pela qual havia optado. Sentiu vontade de ir além, até o horizonte que seus olhos alcançavam.

A menina de olhos castanhos passou a trabalhar a sua forma de lidar com aquilo que a rodeava e, mais ainda, a maneira como se relacionava consigo própria.

Hoje ainda se intitula como a “menina de olhos castanhos”. Mas agora tem a convicção, em seu íntimo, de que é muito mais do quê isso. Não perdeu a sua essência, continua com aquele seu espírito de garota, mas uma garota cheia de experiências de vida, percepções de coisas, de gente, do mundo.

A mulher de belíssimos e profundos olhos castanhos. A mulher que, enfim, despiu-se de sua miopia moral.
***

Texto de minha autoria originalmente publicado no blog Diversidade Convergente!

15 novembro, 2012

O Romantismo, a Revolução Francesa, Delacroix e o Brasil


A Arte nos inspira a fazer um paralelo sobre questões contemporâneas. É certo que a expressão da arte é uma das melhores formas de tornar “duradoura” a percepção do artista quanto à mensagem que anseia transmitir, embora a luta pela liberdade se perpetue. Foi o que aconteceu com a obra confeccionada em 1830, que traz significados suficientemente claros e que podem ser adequados a vários temas atuais.


No século XVIII surgiu na Europa o Romantismo, movimento que conquistou grande repercussão, sobretudo na França, motivado pelos ideais do Iluminismo e, também, da Revolução Francesa: “Liberté, Égalité, fraternité” (Liberdade, Igualdade e Fraternidade).

Entre as principais características do movimento estão a demonstração do nacionalismo, a valorização das emoções e dramaticidade, a centralização do indivíduo e seu sentimentalismo frente ao Estado opressor e à crise social, a desconsideração da racionalidade estabelecida pelo academicismo através da retratação de figuras fictícias, além do subjetivismo atendo-se ao contexto histórico.

Uma das obras célebres deste movimento é a “La Liberté guidant le peuple” (Liberdade Guiando o Povo), do artista francês Eugène Delacroix, que externa algumas propostas do Romantismo: a busca pela Liberdade tão almejada pelos revolucionários; os soldados mortos por este grupo que lutava por seus ideais embelecidos pela Revolução Francesa. O espetacular é que a dita “Liberdade” se traduz através de uma figura feminina que carrega uma bandeira francesa, polemicamente representada com os seios nus e empunhando uma arma de forma a expor a luta pelos ideais, sendo o símbolo máximo de liberdade e democracia a ser alcançado. O pintor realça o seu sentimentalismo retratando a si mesmo como um dos revolucionários, demonstrando o seu apoio ao movimento revolucionário e sua ânsia por ter participado.

É nítido que tal obra é carregada de significados quando consideramos a situação histórica a que se refere. Ao analisá-la, é possível pensar sobre a conotação do tema “liberdade” nos dias de hoje.

***

Fazendo um salto histórico e geográfico, chegamos ao Brasil. O nosso país é marcado não pela busca do que chamamos de liberdade, mas sim de lutas por interesses, o que incitou o surgimento durante anos de milícias e movimentos separatistas contra governos opressores no Brasil. É de se impressionar que o Brasil é visto como um dos únicos países que alcançou a independência com participação popular quase nula e sem necessariamente ter que derramar sangue. Os poucos movimentos sociais/populares que existiram foram de baixa expressividade. Há tempos o que prevalece é o costume de o povo não buscar com afinco a dita “liberdade”.

Após o período de ditadura militar, durante o processo de abertura política, surgiu a necessidade de defender valores democráticos. O alcance à democracia e às liberdades foi, em tese, materializado com o surgimento da Carta Magna de 1988, a qual trouxe o devido respaldo aos direitos e garantias fundamentais que por anos foram privados aos brasileiros, passando a incluir todos os cidadãos dentro das proporções igualitárias.

Mas seriam estes direitos escritos no papel suficientes para que sejamos livres e possamos exercê-los de forma plena? Não seríamos escravos daquilo que pensamos ser a liberdade? O fato é que, embora tenhamos direitos respaldados pela Constituição da República, nem sempre conseguimos alcançá-los por questões diversas.

O artigo 6º da Constituição Federal dispõe: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

Ora, tais direitos sociais nos são constitucionalmente garantidos e nem por isso são respeitados. Um exemplo clássico é a saúde. Todos nós sabemos o quanto é precária a situação do atendimento público de saúde, apesar de ser obrigação plena do Estado garanti-la.

Embora existam soluções no papel, podemos ousar afirmar que carecemos de movimentos sociais pontuais para exercer o que nos é, de direito, garantido. O Direito em suas diversas vertentes tem como finalidade atender a todos, de forma justa, pacífica e igualitária, pelo menos na teoria. Tal finalidade somente pode ser atingida através de batalhas. Não há que se falar de lutas corpo a corpo, mas luta por direitos, por fazer valer aquilo que deveria nos ser garantido. O que se denota, no entanto, é que não temos a “liberdade” que deveríamos ter.

Ademais, ainda convivemos com a barreira de não sabermos, na íntegra, a liberdade que realmente buscamos ou do quê precisamos nos libertar. Somos ludibriados ou aceitamos sermos colocados nessa posição. O brasileiro se acomodou com esse “estilo de vida”, vestiu tais paradigmas.

A liberdade deveria ser o pleno alcance ao que é nosso de direito, sem termos que nos submeter à boa vontade do Estado, que muitas vezes não cumpre o que lhe é incumbido. A liberdade deveria ser o estereótipo da dignidade da pessoa humana. Mas ainda não a enxergamos assim. Por vezes preferimos nos manter vendados, à espera de algo que nunca chegará.

Talvez falte uma inspiração que nos motive a não sermos escravos de nossas próprias rotinas, nossos próprios comodismos, enquanto impera a nossa apatia.
Falta-nos, antes de tudo, uma “Liberdade Guiando o Povo”, que nos instigue a sair da inércia. Precisamos não necessariamente de um símbolo, mas de algo maior, que nos inspire a querer mudar. É preciso, antes de tudo, percebermos que há algo a ser conquistado e que não será desbravado sem um primeiro passo. Em uma analogia ao Mito da Caverna de Platão, é preciso haver a superação de nossa ignorância para que o conhecimento seja aceito e concretizado; neste caso, para que a liberdade seja obtida.

Falta-nos a coragem para ir adiante. Afinal, torna-se difícil lutarmos por algo enquanto nem nós mesmos sabemos o que queremos. Um pouco do romantismo europeu nos dias de hoje cairia muito bem ao Brasil.

* Texto de minha autoria originalmente publicado no blog DIVERSIDADE CONVERGENTE:


11 julho, 2012

Hoje eu vou falar!



Tenho feito um apanhado da minha vida. Sim, da minha vida. Talvez não seja isso que as pessoas esperam de uma mulher no auge dos seus 26 anos recém completados, sobretudo quando acham que não tenho preocupações já que estou me relacionando com um homem grisalho (no sentido de “mais maduro”) e bem sucedido. Sei que provavelmente você não me levará a sério. Sei que você me enxerga como uma simples menina que passou por momentos difíceis quando teve um choque de realidade. Uma simples garota que vivia em um mundo de magia e agora se sente no mundo das sombras. Mas não é bem isso, meu bem. Isso aqui é somente a casca. Você não faz ideia do mundo assombroso por trás desse meu rostinho angelical e destes olhos claros levemente defeituosos. O defeito é meramente visual, jamais cerebral. E eu vejo além do que está na frente dos meus olhos, embora não pareça.

Eu não sou mais aquela garotinha superficial e tonta que muitos pensam que ainda sou. E por pensarem assim – aliás, a maioria dos que deduzem isso sequer pensam – acham que podem me manipular. Que podem me domar, me amaciar com elogios, com frases feitas, com gentilezas forçadas. Eu não sou otária! E antes que você questione, eu também não tenho síndrome de perseguição. Simplesmente resolvi abrir meus olhos. Esses meus olhos que antes viviam fechados para a realidade, que viviam entorpecidos por um mundo que não existia. Não, querido! Não é pessimismo: é revolta! Revolta com as coisas erradas, com tudo que queria mudar, mas não posso. Esgotamento psíquico. Vontade de sumir! É surpresa ao ver como as pessoas são sujas, imundas na verdade! E que com seus sorrisos maquiavélicos tentam nos dar uma rasteira. Ainda assim, sustentam a imagem de boazinhas.

Eu só estou cansada! Há muito tempo tenho me calado, mas esse silêncio tem me corroído por dentro. Não me venha com essa conversa de que com o tempo tudo vai melhorar. Esse clichê já é batido. No máximo torna as cicatrizes estagnadas, mas passíveis de se tornarem feridas abertas outra vez. Muito mais pertinente usar a frase que coincidentemente li hoje e fiz questão de anotar na minha pseudo-agenda: “O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções”(Martha Medeiros). E complemento: em certos casos (digo por experiência própria), o tempo até intensifica as dores. Ao mesmo tempo que as tira de foco, ele a alimenta de forma progressiva e sutil. Bem... essa é a minha visão. Acho que o tempo, afinal, é um paradoxo que nos machuca e nos consola ao mesmo tempo.

Não se preocupe com o que estou te dizendo! Estou bem, de verdade! Apenas extravasando... Voltando ao nível normal de saturação. Enfrentando a semana com a cabeça erguida, observando essa gente hipócrita que, por mais cretina que seja, também tem seu aspecto bom. “Bom” no sentido de bondade mesmo. Não! Não é contradição nem hipocrisia minha. É constatação.

Ainda me acostumando com a ideia de que os principais motivos para muitas pessoas serem sujas é a vontade incalculável de comparecem aos seus shopping-templos para venerarem o deus do consumo. Engraçado como a “melhor” e a “pior” coisa se associa ao dinheiro. E muitas pessoas acham que sou como elas, como se minha prioridade fosse idolatrar esse mesmo “deus”.

Fique frio! Em nenhum momento disse que sou santa, perfeita, incapaz de errar. Às vezes acho que erro mais que todo mundo, que tomo decisões erradas, que faço sofrer quem eu amo. 

E contesto! Contesto quando você me diz que agora estamos juntos para superar tudo. Por mais que a sua intenção seja boa, isso é inverídico. Você não entende que não somos “um”. Somos dois, eu e você. Duas peças chaves que se completam, mas que não se misturam. Eu tenho a minha cabeça, meus pensamentos, minhas neuras. Você também tem as suas. Mas concordo que hoje já não sei mais viver sem você. Você é o meu ponto de equilíbrio e, sem querer ser prepotente, eu sei que também sou o seu. Às vezes não sei se você fala em códigos para me deixar louca ou se eu já estou louca e acho que você tem um “Q” misterioso. Não sei o que pensar. E quando penso, sinto que é melhor não arriscar. O meu racional me diz que nada disso é racional. Meu emocional me diz que eu só posso estar com você... e é com você que ainda poderei ser feliz. Tenho tentado... Mas não sei se sou eu, se é o meu ego ou minha deficiência em assimilar e digerir rapidamente essa infinidade de fatos absurdamente e pejorativamente poderosos, que tenho sentido que estamos como duas retas paralelas, que caminham para um mesmo destino, possuem os mesmos ideais, mas não se olham.

Tudo isso pra te dizer que o apanhado que resolvi fazer, mesmo que você esteja confuso com esse tanto de assuntos desconexos e ditos sequencialmente sem qualquer vínculo, ou com elos que eu estabeleci entre uma loucura e outra, foi para enumerar os seguintes pontos que têm me tornado fragilizada. Talvez assim você entenda o turbilhão que se passa aqui nessa cachola. São eles:

* Descobri que não posso mudar o mundo. Que há coisas erradas que, por mais que eu me esforce, continuarão erradas. Descobri que não tenho forças contra titãs, gigantes que pisam em todos e tomam conta de tudo.

* Descobri que por mais que as situações sejam complicadas, que mesmo que a revolta seja insuportável, simplesmente não há o poder de reverter certas coisas, pois não depende de mim.

* Descobri que o que me revolta é não poder ter o controle das coisas, sobretudo aquilo que eu acho errado e penso que poderia consertar. Mas isso é a vida, não é? Talvez seja isso que tenha me feito perceber que os contos de fadas são exatamente isso: conto de fadas.

Não espero que me compreenda. Mas espero que esteja comigo. Aliás, desde que vim morar nessa cidade maluca, foi você com quem sempre contei, mesmo antes de você saber disso. Tenho sentido que estou te afastando, mas não quero isso. Isso é a consequência da história de quem envelheceu demais de uma hora pra outra, alguém que viu o que achou que nunca poderia ver. Alguém que esteve no inferno, mas que conseguiu sair... com feridas, mas de pé. E agora busca em você o refúgio, só que sem te sugar, de forma a te retribuir com o melhor que ela tem, tudo que lhe restou. E são coisas que valem a pena lutar!

E como sempre, despejei minha confusão em você. Acho que te uso como fonte de desabafo, mesmo que nada faça sentido pra você. Sabe de uma coisa? Acho que gosto mesmo de você. Na verdade, sabemos que é bem mais que isso. Bom... agora vou trabalhar. Tenha um excelente dia, nos vemos à noite!

04 fevereiro, 2012

Daniel Wagner, O Artista de Rua


Há cerca de dois meses, eu e o Daniel China (colaborador deste blog), temos visitado arredores de nosso local de trabalho durante o horário de almoço, no centro de Brasília/DF. Em uma dessas breves caminhadas encontramos uma das artes mais maravilhosas que poderia existir em um local que é sinônimo de correria, de pessoas ocupadas e contrastes sociais: Daniel Wagner, o Artista de Rua!

Em um cantinho, por trás dos comerciantes, estava Daniel e suas pinturas feitas em azulejos. Impressionante a rapidez, as técnicas, a percepção, o jogo de cores, o claro-escuro, o sombreado e a criatividade desse artista. É o tipo de coisa que nos faz parar e admirar. Cada tela pintada é tão rica em minuciosos detalhes que não nos deixa “cansar” de olharmos.


Para quem conhece Brasília, Daniel está de passagem pela cidade e faz pinturas no Setor Comercial Sul, quadra 03, ao lado das Lojas Americanas, em um vão recheado de vendedores ambulantes. Ao que tudo indica, ele viajará para o Rio de Janeiro e ficará em Copacabana durante o Carnaval, onde dará o ar de sua graça expondo e vendendo sua arte.



No contato que tivemos, soube um pouco de sua história. Daniel é um rapaz de 28 anos, nasceu em Belém-PA e, desde cedo, tem revelado o seu talento para as artes. “Na escola, eu era burro em matemática, era burro em português, mas tirava nota 10 em artes” – disse sorrindo.

Há pouco tempo suas pinturas eram feitas com o uso de spray, conforme se vê neste vídeo:


No entanto, devido a problemas de saúde e após consulta médica, ele ficou impedido de usar este tipo material para confecção de sua arte. Não houve problema para alguém como ele, com talento alternativo e ilimitado. Seu trabalho, atualmente, se volta à pintura em azulejos. Também pinta telas, mas somente por encomenda, pois são mais difíceis de serem vendidas devido ao custo ser um pouco maior. A pintura em azulejos o assegura de um volume maior de vendas e traz maior praticidade às confecções.


Há uma infinidade de temas em suas pinturas, mas sempre se destacam belas paisagens. Neste vídeo há uma breve manifestação de seu trabalho, junto com o de outros artistas de rua.


Daniel viaja por todo Brasil expondo e comercializando sua arte. Suas pinturas são a sua fonte de renda. Certo dia, em uma conversa, ele disse que cada pessoa é boa em alguma coisa, cada um tem o seu dom que só precisa ser descoberto e trabalhado. O dele é o dom da arte. Completou que investe naquilo que é bom e afirmou, sem qualquer hesitação, sua vontade de expressar sua arte por novas fronteiras e ser reconhecido por ela. Já afirmou que não viaja por todos os cantos para ganhar dinheiro, apesar de ser um fator vital para continuar expondo. Em muitas ocasiões ele ressaltou seu amor à arte, que gosta de fazer obras bem trabalhadas e só comercializa obras de qualidade. Não pensa em quantidade, mas em qualidade.


Daniel é um rapaz humilde, carismático, simpático, sempre sorridente e de uma sabedoria imensa. Sente vontade de quebrar barreiras e, através de seu dom, propiciar uma vida melhor para seus pais. Em diversas ocasiões, mencionou sua vontade em melhorar de vida e ajudar sua família.


Dizem que o Brasil é o país do futebol e do Carnaval! Tenho um certo asco dessa definição porque isso limita o país a apenas esses dois tipos de “riquezas”. Mas, de fato, os maiores investimentos culturais do país se voltam, praticamente, ao que foi citado.


Em contrapartida, vejo no Brasil uma infinidade de riquezas tão dignas quanto às já citadas (senão mais) de receberem maiores incentivos; dentre elas, grandes artistas. Daniel é um exemplo vivo de que aqui há diversas manifestações de arte, mas não existe a devida instigação, sobretudo por parte do governo.


Fico pensando que se este rapaz, assim como tantos outros, pudesse ter a oportunidade de estudar e aperfeiçoar seu dom através de um patrocínio do próprio Estado, a cultura do país se sobressairia muito no quesito “arte”. Admiro-me (negativamente) com a inversão de valores, a banalização de temas que deveriam ser considerados como dádivas e o culto a idiotices e futilidades. Neste contexto, é nítido que vários talentos são desperdiçados ou só encontram reconhecimento quando se encontram fora de seu país de origem. E o que acontece? O país PERDE pessoas únicas, a CULTURA do país perde riquezas insubstituíveis por falta de investimento.


Este post é apenas uma forma de reconhecer, divulgar e mostrar minha profunda admiração pelo trabalho de Daniel Wagner: uma pessoa simples e, ao mesmo tempo, muito rica em talento, ensinamentos e experiência de vidas. Um rapaz batalhador que não mede esforços para correr atrás de seus sonhos, que merece muito mais do que vender belíssimas obras de arte a preço de banana. Alguém que merece ser valorizado não apenas como artista, mas como exemplo de pessoa!


Abaixo seguem algumas aquisições feitas por mim e pelo Daniel China. Nós dois juntos já compramos cerca de 30 azulejos com os mais variados temas. Como forma de não banalizar sua arte e não facilitar o plágio por parte de outros pintores, a divulgação será limitada. Trata-se apenas de uma amostra de tamanho talento: Daniel Wagner, o artista de rua!



06 janeiro, 2011

Alcance da Perfeição




Antes de prosseguir, peço licença para associar características do Arcadismo (literatura) ao que será dito a seguir. Não há o intuito de provar que os assuntos tratados se relacionam com artifícios literários, mas sim uma forma encontrada para articular pensamentos e elucidar, ao meu modo, através de um jogo de palavras.

***

O que é perfeição? Fácil moldar o que pode ser perfeito e chegar a conclusões de que não passa de utopia.

A busca descomunal de uma suposta perfeição pode levar a um só caminho: a desilusão. E este desapontamento pode ser visto de uma maneira positiva e outra negativa.

Positiva no sentido de nos tirar de um torpor, de nos fazer enxergar como realmente são os fatos. Até então, as situações da realidade se encontravam bloqueadas por fantasias que eram sustentadas.

Em contrapeso, se não soubermos lidar com a realidade tal qual ela é, carregaremos uma decepção por sabermos que aquilo que idealizamos nada mais é que uma forma de não perceber a própria realidade; ou de não querer percebê-la. Idealizações em demasia que impliquem no viver em busca de ilusões são o primeiro passo para a desilusão.

Planejar, ter metas estipuladas e acreditar que planos possam ser concluídos da forma que se almeja não é ruim, mas se torna perigoso quando não se tem a real percepção da realidade e das reais possibilidades. Não basta querer ou imaginar como as coisas seriam, pois nada acontece se ficarmos inertes. Sempre é preciso dar o primeiro passo para que realizações ocorram, mesmo que este passo seja ínfimo e conte com auxílio da sorte (ou coincidência, ou destino, fica a critério de cada um).

A “perfeição” tão sonhada pode estar em tudo, desde que se esteja com os pés no chão. Perfeição pode ser um cantinho bacana para morar, ler um bom livro, ter bons amigos, um almoço em família e tantas outras circunstâncias. Isto remete à característica do Aurea Mediocritas, que trata da ideia de que o que se tem, ainda que seja pouco, pode ser o suficiente para proporcionar a felicidade. Esta é a condição básica para ser feliz: contentar-se com o que se tem.

Interessante também abordar o Fugere Urbem, que traduz a fuga para o campo, longe de uma cidade conturbada. Neste sentido, até uma simples casa no campo traria tranquilidade para o espírito e significaria um momento perfeito.

Abre-se espaço para falar sobre a busca de um alguém perfeito, com quem se possa ter um relacionamento saudável e, acima de tudo, recíproco. Na minha opinião, e não somente ao meu ver, a perfeição de um relacionamento está principalmente nisso: na reciprocidade.

Quando aprendemos a enxergar o perfeito naquele que está conosco, ainda que não fechemos os olhos para seus inúmeros defeitos, tudo se torna claro e saudável. A questão é saber lidar com o que se tem e saber enxergar o real, e não as ilusões que alimentamos. Rotular as pessoas é um dos maiores erros, porque isso nos traz insatisfação; nos torna incapazes de aceitarmos ao outro em suas particularidades.

É difícil quando se espera algo de alguém sem que isto esteja no querer do outro em realizar o que esperamos. É mais fácil atribuir a culpa ao outro do que se adequar ao que, de fato, existe.

Não adianta forçar uma situação de acordo com o que queremos que aconteça se há algo mais forte que a desvia daquilo que imaginamos. Menciono dois caminhos/soluções: ou nos adequamos ou ignoramos racionalmente. Estas duas maneiras citadas de se lidar, na minha concepção, são as mais prudentes. Isto porque ambas podem acrescentar e nos fazer crescer em algum sentido, hora nos tornando tolerantes, hora cortando o excesso - o desnecessário.

Esta última, qual seja o “ignorar racionalmente”, carrega a filosofia do Inutilia Truncat que, em outros termos, traduz o “cortar o inútil”. Isto significa acabar com os excessos e enxergar as coisas de uma forma mais simplificada, evitando provocar confusões ou complicar o que pode ser simples. O que se pressupõe é que caso se alimente ilusões, que por si só nada acrescem e apenas desvirtuam o caminho, a frustração baterá à porta. Sendo assim, prudente se faz ignorar de maneira racional tudo que não nos acrescenta.

Interessante é aproveitar a vida com aquilo que ela lhe oferece, não desperdiçando oportunidades e não viver de sonhos impossíveis: viver o agora, pensar no presente, uma vez que o futuro é consequência do que se faz hoje. Nada mais pertinente do que mencionar a frase em latim Carpe diem, traduzida também como “aproveite o dia”.

Imperioso é se manter firme, viver a sua realidade da melhor forma possível, sem nutrir sonhos impossíveis. Sonhar é permitido e é algo que deve ser perene, desde que estes sonhos não transponham a barreira do possível e sob a condição de que haja comprometimento para correr atrás se puderem ser alcançados.

O que se pode sintetizar é que a perfeição está pura e simplesmente no Carpe Diem! Que esta expressão seja vista com amplo significado e que tudo que seja apto de proporcionar crescimento pessoal seja enfatizado.

Procure descrever para si mesmo a sensação de se realizar algo produtivo, prazeroso, relevante. Pense e repense no quanto é necessário viver o agora, até que este se torne uma doce lembrança. E assim...

... Aproveite o dia!

16 dezembro, 2010

Há muito tempo sem postar!

Mais de um ano sem posts novos! Que vergonha! (Mentira, não estou com vergonha!)

Aí vai um joguinho para quem quiser perder preciosos minutos de seu tempo.


Parei na fase 28 porque fiquei sem paciência, mas até que é legalzinho.


Cuidado para não derrubar o good guy quando ele aparecer. Derrube apenas o bad guy!

Em breve (não sei quão breve será), novos textos!


Abraços e desejos de um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações para todos.




Blow Things Up


22 outubro, 2009

SONHOS e SONHAR

Dos anseios ao que se vive na realidade.
O sonho que se espera é a vontade de que aconteça.(DANIEL NUNES)





Os sonhos, muitas vezes, inquietam por causar certo Déjà vu ou mesmo por trazer questões importantes que algumas pessoas buscam levá-los como um aviso ou fato preste a acontecer. Farei observações que não pretendem ser uma abordagem cientifica, apesar de que caminharei pela linha da coerência. Pretendo, também, entrar em questões um tanto quanto metafísicas. Mas, irei delimitar o sonho aos nossos anseios, seja de pessoas ou de vontades. Sempre buscando trazer à luz de uma boa observação e concatenação de ideias, bom, essa é a minha proposta nas linhas que se seguirão.


Peter Burke em seu livro, A Escola dos Analles, trata da questão dos sonhos em diferentes culturas, através dos tempos, em um pequeno espaço de seu estudo dentro deste livro. Ele chegou a algumas conclusões que os sonhos, na verdade, tem a ver com o meio cultural e o cotidiano das pessoas. Inclusive existe um levantamento de probabilidades de sonhos que vieram a se tornar realidade, menos de 5% vieram a ter esses sonhos concretizados, entre outras palavras: Sonhar nada mais seria, por sua definição de probabilidade, do que um advento do acaso. Essa é a parte que cabe à história, mas ainda existe o lado da psicologia e psicanálise que irão relatar quase a mesmo sentindo, apenas abrangendo questões mais particulares e pessoais.


E o sonho, em seus estudos, é bem delineado em REM e não REM (Rapid Eyes Moviment). E segundos os estudos é na fase REM que se você vier a acordar , certamente, saberá do que estava sonhando. Isso demonstra que os sonhos são objetos de estudos e que a ciência sabe muito bem que eles fazem parte, também, do processo evolutivo de alguns seres. Essa seria uma questão técnica para o sonho e sono fisiológico, mas o grande chamariz dessas questões são os sonhos coletivos( isso para estudos) e os sonhos individuais, esses dificilmente encabeçam alguma explicações cientificas, a singularidade e particularidade muitas vezes são delegadas ao acaso.


Uma vez sonhei que estava num castelo esplendoroso, numa grande festa, as paredes desse castelo tinham tapetes bem bonitos e trabalhados. E muita, mas muitas pessoas dentro desse castelo. Estava ao lado de outra pessoa e conversava com ela. Eu dizia a ela que sabia que aquilo ali era um sonho, engraçado, tinha noção de que estava sonhando, mas a pessoa ao meu lado dizia que não, não era um sonho, que eu poderia tentar acordar pra ver se era verdade. Não sei como, passado um tempinho acordei. Lembro de até achar engraçada a situação e falado comigo mesmo: sabia que era um sonho. Bom, mas o mais interessante estava por vir, ao novamente pegar no sono volto para o mesmo dito lugar e ao lado da mesma pessoa me falando: viu? Não é sonho.


Confesso que até hoje sou encucado com esse sonho e olha que o tive lá pelos meus 14 ou 15 anos. Vejam que alguns sonhos fogem de um padrão explicativo, o desenrolar desse sonho foi com a pessoa me falando assuntos que esqueci. Com o detalhe que tanto a pessoa que eu conversava, como outras que nunca as vi. Qual foi o padrão que o meu cérebro se utilizou para me passar um sonho tão bem organizado?


Também já tive sonhos a experimentar sensações impossíveis para um ser humano. Como o fato de voar sem auxilio de nada, apenas com a vontade mesmo de voar e a sensação experimentada é muito boa, sensação de voar, plainar.


Muitos pesadelos também, sonhos com o apocalipse do mundo, morrendo, sonhos de fugas, de guerras.


Dizem que muitas informações nos são transmitidas hereditariamente. Como muitos medos peculiares que herdamos sem saber o porquê, mesmo que não contenham uma explicação tão cultural. O pior é que nenhuma, ou quase nenhuma, explicação você alcançará através de pesquisas, porque essas questões são batidas e a psicanálise e psicologia possuem um foco muito delimitado para essas questões e o parecer segue um “CID” para cada circunstâncias.


Não é à toa que surgiram muitos ditos “desvendadores de sonhos”, verdadeiros tradutores da aflição alheia. Mas não é de hoje que os sonhos nos inquietam, na bíblia os sonhos desempenhavam um papel importante. Antigos sacerdotes também levavam muito em conta os sonhos. Alias, a maior parte dos sonhos na idade média, sonhada pelos camponeses, era um manjar numa mesa repleta com comidas, vinhos e tudo o mais. Pelo largo período de fome que passavam esses sonhos poderiam ser o senso comum.


Existem sites que trazem “explicações” para os fenômenos dos sonhos. Se sonha com um animal X ou com uma situação Y o site indica um tipo de significado. A meu ver parecem existir aí padrões já percebidos nos sonhos e a melhor explicação seriam os anseios antes mencionados.


Mas os que nos inquietam são aqueles que não conseguimos explicar por não haver nenhuma situação plausível que nos interliguem. A estes sou adepto da seguinte teoria, propriamente teoria minha: que o ser humano é bem mais que um “replicador de genes ou DNA”. Que nós somos grandes elos de informações passadas por gerações e o nosso cérebro um armazenador dessas informações. Que ora ou outra flagramos uma dessas informações deixadas por alguém da nossa cadeia hereditária. Isso explicaria, em partes, alguns sonhos que fogem dos nossos anseios e do nosso meio cultural de época.


Mas, como explicar aquele sonho de acordar e voltar para o mesmo local e continuar a conversa com as mesmas pessoas, tudo bem organizado?


Sei que outras pessoas já tiveram sonhos semelhantes. E para esses sonhos tenho uma explicação, também particular, de que os sonhos não encontram explicações externas, mas internas. O sonho coletivo é aquele que historiadores, psicólogos, psicanalistas tentaram padronizar, mas o sonho individual, esse só pode encontrar uma resposta em nós mesmos. Seja fator pessoal, emocional ou sentimental, o fato é que temos sonhos a fugir dos padrões e permanecerem em nossas lembranças, saindo do reservatório de informações e fazerem parte das lembranças.


Pessoas sonham constantemente. Sonhar, desde que não seja um pesadelo é muito prazeroso. Mesmo que venham carregados de “códigos”. Os sonhos possuem seu mundo à parte. Que situação você poderia rever pessoas que já partiram dessa vida que não fosse num sonho? Aquelas pessoas que você ainda conheceu na infância, viver um amor correspondido no sonho com a pessoa que deseja. Todas essas situações tão agradáveis nos fazem um bem enorme.


Sempre temos sonhos pautados em alguma questão. Quando sonhamos com coisas absurdas, ou de pouca relevância, esses sonhos acabam no esquecimento. Mas quando você tem aquele sonho com morte, com pessoas que morreram, com avisos, com lugares e pessoas que nunca viu, certamente eles nos cobrarão uma atenção, claro, se flagrados naquela fase entre estar acordando e sonhando. Óbvio que em algum momento os sonhos venham como respostas para tantas dúvidas que passamos e que desejamos encontrar uma solução, quase sempre o sonho flagrado refletiria esse nosso anseio.


DOS NOSSOS SONHOS


Com certeza a etapa mais instigante. Não basta só deitar-se e sonhar. Sonhar é tão importante que trazemos para nossa realidade. Todos sonham com algo, geralmente em forma de desejos, sejam de ordem sócio-cultural ou econômico. O fato é que todo o ser é um condutor de sonhos. Viver acordado não é tão paralelo a viver sonhando. Dizem que a pessoa que deixa de sonhar está morta em vida. Quantos mortos estão a caminhar pelo mundo? Qual seria o sonho de uma criança órfã? Qual seria o sonho de quem não tem onde morar? Sonhos cuja interrogação apenas pede a resposta que todos temos noção de qual seja.


Todos sonham com um mundo melhor. Onde as pessoas não exaltem tanto as diferenças, onde os homens convivam em harmonia. Sonham com o fim da fome, fim das guerra, fim das injustiças. Todos querem um mundo melhor, mas esse mundo parece existir apenas em nossos sonhos, porque SONHOS e SONHAR também viraram sinônimos de DESEJAR E UTOPIA. Quem não se lembra do grande discurso de Martin Luther King?


“I have a dream...”


Um sonho de um homem que atravessa gerações lá nos USA. E aqui, quem foi o grande sonhador? Lembro de uma pessoa, sociólogo Betinho que tinha uma campanha de luta contra a fome, mesmo com AIDS (adquirida numa transfusão de sangue) não media esforços para lutar por uma causa nobre. Pouco tempo atrás li um livro, cujo título era: O VENDEDOR DE SONHOS (AUGUSTO CURY). Livro que tinha a temática de resgatar uma sociedade que deixara de sonhar.


Mudanças se relacionam com sonhos. Martin, Betinho eram sonhadores sociais que expunham seus sonhos com uma sociedade igual, justa e democrática. Seus sonhos ainda são compartilhados por tantos outros.


A ousadia de sonhar nos faz diferente. Num mundo de pesadelos, meu maior sonho seria me blindar de todo o mundo e pessoas, para que eu não me contaminasse com seus pesadelos, o pesadelo de deixar de sonhar. Da explicação pragmática, doxa ou episteme, sonhar e sonhos é uma questão humana. Dos anseios ao que se vive na realidade. O sonho que se espera é a vontade de que aconteça. Um sonho para se recordar talvez seja aquele que se queira viver. Um sonho para se sonhar é aquele que nos fazem viver. Espero sonhar com mais intensidade e me desligar das explicações(que não explicam), me deixar refletir sobre a vida e os momentos.